domingo, 2 de novembro de 2008

Problema # 01

Iniciamos aqui uma nova etapa da construção deste blog.
Eis o primeiro problema de xadrez, algo não tão complicado assim, mas uma possibilidade de manter o raciocínio em dia.
Espero que gostem.
Grande grande abraço.

terça-feira, 16 de setembro de 2008

Um conto só de passagem


Silêncio total, olhares atentos por parte dos dois jogadores e de espectadores que cercam uma mesinha de concreto numa praça pública. Realiza-se, neste momento, uma partida de xadrez.
No exato instante, um rapaz que passa pelo local vê o grau de concentração impresso nas fisionomias das pessoas que observam o jogo. Aproxima-se, curioso. Pergunta o que está acontecendo ali e alguém faz “shhh!”, pedindo silêncio. Consegue, pouco a pouco, penetrar a muralha quieta que cerca, admirada, os enxadristas desconhecidos – ao menos para o recém-chegado. Calado, decide assistir ao jogo, mesmo sem conhecer suas regras.
Após o calculado movimento de um cavalo branco de seu oponente, o jogador mais novo – aparentava ter uns dezesseis ou dezessete anos – deita uma peça sobre o tabuleiro e estende a mão para cumprimentar o seu algoz adversário, um senhor de ar intelectual, mas repleto de simpatia. Um breve murmúrio dos assistentes anunciava o fim do jogo. O curioso estranhou não ter ouvido a célebre frase “xeque-mate!”.
O silêncio se desfaz. “Eu também teria derrubado o rei após aquele lance fantástico!”, dizia um adolescente ao seu colega que, empolgado com a partida que acabara de assistir, aplaudia os dois jogadores.
As peças do jogo são guardadas em um pequeno estojo de couro, o tabuleiro, dobrado e levado sob o braço do jogador mais novo – mais tarde, o curioso assistente ficaria sabendo que os dois jogadores eram pai e filho que costumavam, sempre no mesmo dia e horário, jogar xadrez naquela praça, na mesma mesa de concreto.
Os espectadores dispersam e seguem seus rumos. Alguns ainda comentam certos momentos do jogo. O jogo. O Jogo de Xadrez!
Um estranho incômodo passou a lhe fazer companhia ao fim da partida – na verdade, desde que viu o primeiro olhar concentrado, absorto, fascinado de uma das pessoas em volta da mesinha na praça. A sensação incômoda certamente traduzia a sua impotência diante da ignorância. Sentia-se um ignorante por não ter podido experimentar o êxtase daquele momento. A partida de xadrez passara por ele como se fosse um caminhão desgovernado, atropelando-o. Decidiu que aprenderia a jogar; queria viver as emoções deste novo mundo.
Dois meses depois, Carlos já podia se dizer um assíduo freqüentador da pracinha, sempre levando consigo seu tabuleiro, peças e o sonho de ser, um dia, a inspiração para um curioso que, como ele, resolvesse parar e tentar entender e decifrar os segredos deste fascinante jogo.

(Rafael Calvet)

domingo, 14 de setembro de 2008

Conto relâmpago sobre um rei e seu cavalo indomável



O silêncio absoluto deixava a austeridade estampada no rosto de todos os presentes. Apenas o discreto ruído do relógio sobre a mesa ou um pigarro abafado conseguiam desviar, por um átimo, a atenção de alguém.
Havia uma tensão pairando naquela sala, e o tempo, que passava determinado e grave, era denunciado pelos olhares furtivos e preocupados dos dois adversários e, principalmente, por suas mãos levemente trêmulas. Horas a fio – espremidas em dez míseros minutos! – de um intenso combate entre dois exércitos. Dois reinos em conflito. Quem ficaria com os louros de uma vitória gloriosa? Quem seria destituído de sua coroa?
De súbito, como quem se dá conta de algo grave que acabara de acontecer, Dimitry descola o olhar do tabuleiro e mira o relógio à sua direita: o ponteiro anunciara a sua dança final. O fim da partida se aproximava.
Desesperada, sua mão arremessa a Dama contra um implacável Bispo. Sua derrota era iminente.
“Cavalo! Eu sou mesmo um cavalo! Como não pude ver aquele Bispo?! Eu não passo de um insignificante... É isso! O Cavalo!”
Elegante como um corcel, o Cavalo de Dimitry galopa sobre o tabuleiro e pára, majestosamente, ameaçando Rei e Dama. Fantástico!
Um espectador ameaçou uma interjeição qualquer, mas foi logo contido por um engravatado que segurava uma taça de conhaque e cheirava, com ostensivo prazer, um charuto cubano.
– Xeque!
O ponteiro ameaça cair, e agora, a precipitação obriga o assutado Rei de Piotr a se refugiar num local perigoso demais.
Cheio de júbilo – e ainda com a mão trêmula – Dimitry captura a Dama de seu adversário. Seu Cavalo – “Sim! É um verdadeiro corcel negro! Indomável!” – salta mais uma vez e...
– Xeque!
Só restava uma honrosa alternativa a Piotr Sevtchenko.
Resignado e convencido de que tudo havia sido maquiavelicamente arquitetado por Dimitry, o perdedor – após deitar seu Rei sobre o tabuleiro, como se praticasse um ato de misericórdia – estende a mão num gesto solene ao seu adversário, limitando-se a balbuciar um amargo “foi um prazer” e pronunciar, por entre os dentes, um discreto elogio ao “sacrifício de Dama” de seu oponente que o levou à derrota.
─ Um Cavalo! “Meu reino por um Cavalo!”



(Rafael Calvet)