
O silêncio absoluto deixava a austeridade estampada no rosto de todos os presentes. Apenas o discreto ruído do relógio sobre a mesa ou um pigarro abafado conseguiam desviar, por um átimo, a atenção de alguém.
Havia uma tensão pairando naquela sala, e o tempo, que passava determinado e grave, era denunciado pelos olhares furtivos e preocupados dos dois adversários e, principalmente, por suas mãos levemente trêmulas. Horas a fio – espremidas em dez míseros minutos! – de um intenso combate entre dois exércitos. Dois reinos em conflito. Quem ficaria com os louros de uma vitória gloriosa? Quem seria destituído de sua coroa?
De súbito, como quem se dá conta de algo grave que acabara de acontecer, Dimitry descola o olhar do tabuleiro e mira o relógio à sua direita: o ponteiro anunciara a sua dança final. O fim da partida se aproximava.
Desesperada, sua mão arremessa a Dama contra um implacável Bispo. Sua derrota era iminente.
“Cavalo! Eu sou mesmo um cavalo! Como não pude ver aquele Bispo?! Eu não passo de um insignificante... É isso! O Cavalo!”
Elegante como um corcel, o Cavalo de Dimitry galopa sobre o tabuleiro e pára, majestosamente, ameaçando Rei e Dama. Fantástico!
Um espectador ameaçou uma interjeição qualquer, mas foi logo contido por um engravatado que segurava uma taça de conhaque e cheirava, com ostensivo prazer, um charuto cubano.
– Xeque!
O ponteiro ameaça cair, e agora, a precipitação obriga o assutado Rei de Piotr a se refugiar num local perigoso demais.
Cheio de júbilo – e ainda com a mão trêmula – Dimitry captura a Dama de seu adversário. Seu Cavalo – “Sim! É um verdadeiro corcel negro! Indomável!” – salta mais uma vez e...
– Xeque!
Só restava uma honrosa alternativa a Piotr Sevtchenko.
Resignado e convencido de que tudo havia sido maquiavelicamente arquitetado por Dimitry, o perdedor – após deitar seu Rei sobre o tabuleiro, como se praticasse um ato de misericórdia – estende a mão num gesto solene ao seu adversário, limitando-se a balbuciar um amargo “foi um prazer” e pronunciar, por entre os dentes, um discreto elogio ao “sacrifício de Dama” de seu oponente que o levou à derrota.
─ Um Cavalo! “Meu reino por um Cavalo!”
(Rafael Calvet)

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