
Silêncio total, olhares atentos por parte dos dois jogadores e de espectadores que cercam uma mesinha de concreto numa praça pública. Realiza-se, neste momento, uma partida de xadrez.
No exato instante, um rapaz que passa pelo local vê o grau de concentração impresso nas fisionomias das pessoas que observam o jogo. Aproxima-se, curioso. Pergunta o que está acontecendo ali e alguém faz “shhh!”, pedindo silêncio. Consegue, pouco a pouco, penetrar a muralha quieta que cerca, admirada, os enxadristas desconhecidos – ao menos para o recém-chegado. Calado, decide assistir ao jogo, mesmo sem conhecer suas regras.
Após o calculado movimento de um cavalo branco de seu oponente, o jogador mais novo – aparentava ter uns dezesseis ou dezessete anos – deita uma peça sobre o tabuleiro e estende a mão para cumprimentar o seu algoz adversário, um senhor de ar intelectual, mas repleto de simpatia. Um breve murmúrio dos assistentes anunciava o fim do jogo. O curioso estranhou não ter ouvido a célebre frase “xeque-mate!”.
O silêncio se desfaz. “Eu também teria derrubado o rei após aquele lance fantástico!”, dizia um adolescente ao seu colega que, empolgado com a partida que acabara de assistir, aplaudia os dois jogadores.
As peças do jogo são guardadas em um pequeno estojo de couro, o tabuleiro, dobrado e levado sob o braço do jogador mais novo – mais tarde, o curioso assistente ficaria sabendo que os dois jogadores eram pai e filho que costumavam, sempre no mesmo dia e horário, jogar xadrez naquela praça, na mesma mesa de concreto.
Os espectadores dispersam e seguem seus rumos. Alguns ainda comentam certos momentos do jogo. O jogo. O Jogo de Xadrez!
Um estranho incômodo passou a lhe fazer companhia ao fim da partida – na verdade, desde que viu o primeiro olhar concentrado, absorto, fascinado de uma das pessoas em volta da mesinha na praça. A sensação incômoda certamente traduzia a sua impotência diante da ignorância. Sentia-se um ignorante por não ter podido experimentar o êxtase daquele momento. A partida de xadrez passara por ele como se fosse um caminhão desgovernado, atropelando-o. Decidiu que aprenderia a jogar; queria viver as emoções deste novo mundo.
Dois meses depois, Carlos já podia se dizer um assíduo freqüentador da pracinha, sempre levando consigo seu tabuleiro, peças e o sonho de ser, um dia, a inspiração para um curioso que, como ele, resolvesse parar e tentar entender e decifrar os segredos deste fascinante jogo.
(Rafael Calvet)
No exato instante, um rapaz que passa pelo local vê o grau de concentração impresso nas fisionomias das pessoas que observam o jogo. Aproxima-se, curioso. Pergunta o que está acontecendo ali e alguém faz “shhh!”, pedindo silêncio. Consegue, pouco a pouco, penetrar a muralha quieta que cerca, admirada, os enxadristas desconhecidos – ao menos para o recém-chegado. Calado, decide assistir ao jogo, mesmo sem conhecer suas regras.
Após o calculado movimento de um cavalo branco de seu oponente, o jogador mais novo – aparentava ter uns dezesseis ou dezessete anos – deita uma peça sobre o tabuleiro e estende a mão para cumprimentar o seu algoz adversário, um senhor de ar intelectual, mas repleto de simpatia. Um breve murmúrio dos assistentes anunciava o fim do jogo. O curioso estranhou não ter ouvido a célebre frase “xeque-mate!”.
O silêncio se desfaz. “Eu também teria derrubado o rei após aquele lance fantástico!”, dizia um adolescente ao seu colega que, empolgado com a partida que acabara de assistir, aplaudia os dois jogadores.
As peças do jogo são guardadas em um pequeno estojo de couro, o tabuleiro, dobrado e levado sob o braço do jogador mais novo – mais tarde, o curioso assistente ficaria sabendo que os dois jogadores eram pai e filho que costumavam, sempre no mesmo dia e horário, jogar xadrez naquela praça, na mesma mesa de concreto.
Os espectadores dispersam e seguem seus rumos. Alguns ainda comentam certos momentos do jogo. O jogo. O Jogo de Xadrez!
Um estranho incômodo passou a lhe fazer companhia ao fim da partida – na verdade, desde que viu o primeiro olhar concentrado, absorto, fascinado de uma das pessoas em volta da mesinha na praça. A sensação incômoda certamente traduzia a sua impotência diante da ignorância. Sentia-se um ignorante por não ter podido experimentar o êxtase daquele momento. A partida de xadrez passara por ele como se fosse um caminhão desgovernado, atropelando-o. Decidiu que aprenderia a jogar; queria viver as emoções deste novo mundo.
Dois meses depois, Carlos já podia se dizer um assíduo freqüentador da pracinha, sempre levando consigo seu tabuleiro, peças e o sonho de ser, um dia, a inspiração para um curioso que, como ele, resolvesse parar e tentar entender e decifrar os segredos deste fascinante jogo.
(Rafael Calvet)

